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Tipos de válvula de segurança: convencional, fole e piloto

Aválvula estava ajustada em 10 bar. O sistema chegou a 10,5 e ela não abriu. Desmontada e levada para a bancada, abriu em 10,02 e voltou aprovada, com o mesmo ajuste de antes. Não houve defeito de fabricação, não houve erro de calibração e ninguém mexeu na mola.


O que faltou foi escolher o arranjo certo. Entre os tipos de válvula de segurança que o mercado oferece, o mais comum é o convencional, e ele tem uma característica que quase nunca aparece na cotação: a pressão que existe do lado da descarga soma com a mola. A bancada testa com a saída aberta para a atmosfera. A planta, não.


Este artigo compara os três arranjos que você vai encontrar em qualquer catálogo: convencional, fole balanceado e piloto operada. Não pela lista de vantagens do fabricante, e sim pelo que cada um faz quando existe pressão na saída.


No fim, a intenção é que você consiga olhar para a sua instalação e responder três perguntas. Existe pressão na linha de descarga antes de a válvula abrir? Ela é sempre a mesma, ou muda? E quanto a própria descarga gera de pressão enquanto a válvula está passando vazão? Quem responde essas três já sabe qual arranjo o serviço pede.



A contrapressão é o dado que quase nunca entra na cotação


Contrapressão é a pressão que existe na saída da válvula. Parece detalhe de tubulação e é o parâmetro que separa um arranjo do outro. Antes de seguir, vale ter clara a função do dispositivo: escrevemos em outra peça o que é uma válvula de alívio de pressão e por que ele é a última barreira do equipamento.


Ela não é uma coisa só. Existem duas origens, e elas se comportam de maneiras diferentes, o que significa que exigem soluções diferentes.


As duas origens da contrapressão e o que cada uma desloca

Origem

O que é

Onde aparece

O que ela desloca

Superimposta constante

A pressão que já existe na descarga antes de a válvula abrir e que não muda.

Descarga para um sistema fechado com pressão estável, ou para um coletor dedicado.

A pressão de abertura. Como é previsível, admite compensação no ajuste de bancada.

Superimposta variável

A mesma pressão prévia, porém mudando conforme outras válvulas descarregam no mesmo coletor.

Coletor de alívio compartilhado, tocha, sistema de recuperação de vapor.

A pressão de abertura, de forma imprevisível. Um ajuste fixo de mola não acompanha.

Desenvolvida

A pressão que aparece por causa do próprio escoamento, depois de a válvula abrir.

Sempre. Vem da perda de carga da tubulação de descarga e do silenciador ou tocha.

O levantamento, a capacidade e a pressão de reassentamento.



O que a contrapressão faz com uma válvula de segurança convencional?


Numa válvula convencional, a contrapressão soma com a mola e a válvula passa a abrir acima do ajuste. O desvio acompanha a contrapressão: com 10% de contrapressão sobre a pressão de ajuste, o sistema precisa chegar perto de 110% do ajuste para levantar o disco. O ajuste não mudou. Mudou o que ele significa em serviço.


A razão está na construção. O capuz da convencional é ventilado para o lado da descarga, então a pressão que existe na saída chega ao topo do disco e empurra para baixo, no mesmo sentido da mola. É soma direta, não é efeito de segunda ordem.


Um exemplo publicado na literatura de alívio deixa a conta explícita: uma válvula ajustada em 100 psig, instalada onde existem 10 psig de contrapressão, só levanta quando o sistema alcança 110 psig. Se a proteção do equipamento foi dimensionada contando com abertura em 100, a margem que existia no papel encolheu na instalação.


A contrapressão desenvolvida traz o segundo problema. Ela nasce da perda de carga da própria linha de descarga, e por isso a escolha do arranjo e o projeto da tubulação são a mesma decisão, tomada duas vezes. Tratamos o projeto da tubulação de válvulas de segurança em uma peça específica, porque é ali que boa parte da contrapressão desenvolvida é criada ou evitada.



Os três tipos de válvula de segurança e o caminho da pressão


O desenho abaixo põe os três lado a lado. Repare que a diferença entre eles não está no formato do corpo nem no tamanho do bocal: está em para onde a pressão da descarga consegue ir depois de entrar na válvula.


Como cada arranjo trata a pressão da descarga

Arranjo

Como funciona

O que faz com a contrapressão

O que cobra em troca

Convencional

Mola comprimida contra o disco. O capuz é ventilado para o lado da descarga.

A contrapressão entra no capuz e soma com a mola.

É a construção mais simples, mais barata e a que mais gente conhece e sabe manter.

Fole balanceado

Um fole metálico isola a face de trás do disco. O capuz respira para a atmosfera.

A contrapressão não alcança a mola nem o disco por trás.

O fole é peça de parede fina, se substitui e não se repara, e o respiro do capuz denuncia a falha.

Piloto operada

A própria pressão do processo, admitida no domo, mantém a válvula fechada. O piloto decide.

A contrapressão não participa da decisão de abrir.

O piloto tem passagens estreitas, filtro e linha de sensoriamento, e serviço sujo entope tudo isso.


Quando o fole balanceado é a resposta, e o que ele cobra em troca


O fole é a solução mecânica direta para o problema descrito acima. Ele resolve bem, e resolve cobrando uma coisa que precisa entrar na conta antes da compra, não depois.


O que o fole resolve


Um fole metálico envolve a haste e isola a face de trás do disco da pressão que existe na descarga. Com isso, o capuz deixa de ser ventilado para a saída e passa a respirar para a atmosfera, sempre. A pressão de abertura passa a não depender mais do que acontece no coletor.


É por isso que a válvula com fole balanceado é o arranjo indicado quando a contrapressão superimposta é variável. Um coletor de alívio compartilhado, uma tocha ou um sistema de recuperação de vapor fazem a pressão da saída mudar conforme outras válvulas atuam, e nenhum ajuste fixo de mola acompanha isso.


Existe um segundo motivo, e ele é de engenharia de materiais. Como o fole separa o fluido de processo do restante da válvula, a mola, a guia, a haste e o parafuso de ajuste podem ser construídos em material menos resistente à corrosão.


A literatura de especificação registra exatamente essa troca em serviço agressivo: em aplicações extremamente corrosivas, como sulfeto de hidrogênio, a norma de materiais NACE MR0175, da NACE International, exige que o próprio fole seja fabricado em liga de níquel.


A mesma fonte observa que fluidos que cristalizam, polimerizam ou são muito viscosos podem travar as partes móveis de uma válvula de construção convencional.


Válvula de segurança desmontada em bancada de manutenção com os componentes internos expostos
A integridade do fole só se confirma com a válvula desmontada e ensaiada, e não pela leitura da pressão de abertura.

O que o fole cobra em troca


O fole é um elemento de parede fina, sujeito a fadiga por ciclagem e a corrosão. Ele não é uma peça que se recupera: fole furado ou trincado se substitui, e a substituição é imediata. Isso muda a natureza do plano de manutenção daquela válvula, porque introduz um componente cuja condição não se lê pela pressão de abertura.


Há um detalhe de campo que vale memorizar. O respiro do capuz é o detector de falha do fole: se sair fluido de processo por ele, o fole rompeu, e a válvula voltou a se comportar como uma convencional, com a contrapressão somando de novo. Em serviço tóxico ou inflamável, esse respiro precisa ser encanado para local seguro, porque o que sai por ali é o produto.


É também por isso que a integridade do fole precisa ser verificada na desmontagem, e não inferida do resultado do ensaio de abertura. A distinção entre o que um ensaio mostra e o que ele deixa de mostrar já foi tratada por nós ao explicar o que o certificado de calibração garante de fato: vale integralmente aqui.



Quando a piloto operada compensa, e onde ela é frágil


A piloto operada muda a lógica inteira. Nela, quem mantém a válvula fechada não é uma mola: é a própria pressão do processo, admitida no domo sobre uma área maior do que a da sede. Um piloto sente a pressão da linha e, no momento certo, alivia o domo para que a válvula principal abra.


A consequência prática é interessante. Numa válvula de mola, a força que mantém a sede vedada diminui conforme a pressão se aproxima do ajuste, e é por isso que ela começa a marejar antes de abrir. Na piloto operada acontece o contrário: quanto mais perto do ajuste, maior a força de vedação. Por isso ela é o arranjo indicado quando o processo opera muito perto da pressão de ajuste, e admite blowdown menor sem sacrificar a sede.


Ela também entrega mais capacidade no mesmo tamanho de válvula e, com o piloto adequadamente ventilado, não tem a pressão de abertura afetada pela contrapressão. Em coletor movimentado, é uma alternativa legítima ao fole.


A fragilidade está justamente no que a torna precisa. O piloto é um dispositivo de passagens estreitas, com filtro ou tela e uma linha de sensoriamento. Serviço sujo, incrustante, polimerizante ou com formação de hidrato entope esse circuito, e o entupimento desabilita a válvula inteira, não apenas o piloto. Mais tubulação e mais conexões também significam mais caminhos de vazamento a inspecionar.


Linha de sensoriamento e conexões do piloto de uma válvula de segurança piloto operada
Na válvula piloto operada, quem decide a abertura é um circuito auxiliar de passagens estreitas, com filtro e linha de sensoriamento.

Três perguntas para diagnosticar o seu caso


Nada disso exige medir nada de novo para começar. As três perguntas do início do artigo se respondem com o fluxograma da instalação e com uma volta na área, e já eliminam a maior parte das escolhas erradas. A NR-13, do Ministério do Trabalho e Emprego, exige o dispositivo de segurança e a sua inspeção, e não escolhe o arranjo por você: se ainda não é claro o que a norma cobra e o que ela deixa para a engenharia, veja para que serve a NR-13.


O que a sua instalação diz sobre o arranjo que ela pede

O que você observa

O que acontece com a convencional

Arranjo indicado

Não existe pressão na descarga com a válvula fechada, e a linha de descarga é curta e larga

Trabalha na condição para a qual foi projetada.

Convencional atende.

Existe pressão na descarga, sempre a mesma, com a válvula fechada

Abre acima do ajuste, e o desvio é igual à contrapressão.

Convencional com o ajuste de bancada compensado, ou fole balanceado.

A pressão na descarga muda conforme outras válvulas do coletor atuam

Abre em pressões diferentes a cada evento, sem que ninguém tenha mexido nela.

Fole balanceado ou piloto operada.

A própria descarga gera pressão relevante quando a válvula está passando vazão

Perde levantamento e capacidade, e pode reassentar fora do previsto.

Fole balanceado, piloto operada, ou redimensionar a descarga.

O processo opera muito perto da pressão de ajuste

Começa a marejar antes de abrir, e a sede sofre.

Piloto operada, se o fluido for limpo.

O fluido é corrosivo, cristaliza ou polimeriza

Pode travar as partes móveis e atacar a mola e a guia.

Fole balanceado, com material de fole compatível.


Você ainda tem dúvida sobre qual tipo o seu sistema pede?


Cinco perguntas aparecem em quase toda conversa técnica sobre este assunto, e elas fecham o que ficou solto acima.


Qual a diferença entre válvula de segurança convencional e de fole balanceado?

Na convencional, o capuz é ventilado para a descarga, e a contrapressão soma com a mola, elevando a pressão em que a válvula abre. No fole balanceado, um fole metálico isola a face de trás do disco e o capuz respira para a atmosfera, de modo que a pressão de abertura deixa de depender da descarga.

Não. O fole é um elemento de parede fina sujeito a fadiga e corrosão, e fole furado ou trincado é substituído, não recuperado. A verificação da integridade do fole se faz com a válvula desmontada. Em campo, fluido de processo saindo pelo respiro do capuz indica que o fole rompeu.

Não. Ela é indicada quando o processo opera perto da pressão de ajuste ou quando se quer mais capacidade no mesmo tamanho, e exige fluido limpo. O piloto tem passagens estreitas, filtro e linha de sensoriamento, e serviço sujo, incrustante ou polimerizante obstrui esse circuito e desabilita a válvula inteira.

Pode, desde que a pressão desse coletor seja conhecida e estável. O problema aparece quando outras válvulas descarregam no mesmo coletor: a pressão da saída passa a mudar a cada evento, e nenhum ajuste fixo de mola acompanha isso. Nessa condição, o arranjo indicado é fole balanceado ou piloto operada.

Depende do arranjo, e é por isso que o capuz identifica o tipo em campo. Na convencional, o capuz é ventilado para o lado da descarga, e a contrapressão soma com a mola. No fole balanceado, ele respira obrigatoriamente para a atmosfera; em serviço tóxico ou inflamável, esse respiro precisa ser encanado para local seguro.


O tipo certo começa na descarga


Escolher entre válvula convencional, fole balanceado e piloto operada não é comparar três catálogos. É entender como a pressão se comporta dos dois lados da válvula e qual arranjo continua respondendo corretamente quando a instalação deixa de parecer com a bancada.


A convencional funciona bem quando a contrapressão é baixa, previsível e compatível com o ajuste. O fole balanceado entra quando essa pressão passa a interferir de forma variável no comportamento da válvula. A piloto operada resolve cenários ainda mais exigentes, especialmente quando o processo trabalha perto da pressão de ajuste, mas cobra em limpeza do fluido e complexidade do sistema.


Nenhuma das três é melhor em abstrato. Cada uma resolve um problema específico e cria exigências próprias de manutenção, instalação e acompanhamento.


Por isso, antes de especificar a válvula, vale voltar às três perguntas que abriram este artigo: há pressão na descarga antes da abertura? Ela varia? E quanto a própria descarga acrescenta quando a válvula entra em vazão?


Quando essas respostas estão claras, o arranjo deixa de ser uma escolha de catálogo e passa a ser consequência da engenharia do sistema.


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