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Por que a mola da válvula de segurança quebra?

há 2 dias
10 min de leitura

Duas molas saem da mesma caixa, entram em duas válvulas iguais e trabalham na mesma planta. Anos depois, uma chega à bancada sem novidade e a outra chega trincada. Mesmo fabricante, mesmo lote, mesmo tempo de serviço. A diferença quase nunca está no calendário.


A mola da válvula de segurança não se desgasta como um rolamento, que roda e perde material por atrito. Ela é atacada quimicamente. E o ataque depende de três coisas que o tempo, sozinho, não descreve: o ambiente a que a mola foi exposta, o material com que ela foi feita e o que passa por dentro da válvula.


Essa é a distância entre pensar em vida útil e pensar em mecanismo. O calendário conta quantos anos se passaram. O mecanismo conta o que aconteceu com o aço naqueles anos. São perguntas diferentes, e só a segunda explica por que uma mola quebra e a vizinha não.


A mola é quem define a pressão de ajuste


Vale fixar o que a peça faz antes de falar em falha, porque é a função dela que torna a perda grave. Numa válvula de segurança de mola direta, a pressão do processo empurra o disco para cima e a mola empurra o disco para baixo. A pressão de ajuste é exatamente o ponto em que as duas forças se igualam.


Daí sai a consequência que organiza o resto do artigo: quem guarda o ajuste é a mola. Perder mola é perder ajuste. Não é uma peça de apoio que se troca quando sobra tempo na parada, é o elemento que define o valor de pressão que a válvula vai respeitar. Se você ainda não acompanhou a série, o ponto de partida está no artigo sobre a válvula de alívio de pressão e a prova de que ela atua.


A API RP 576, publicada pelo American Petroleum Institute, separa a falha de mola em duas formas, e a distinção é útil porque as consequências são opostas. Na primeira, a mola enfraquece: a força de fechamento cai, a pressão de ajuste cai junto e a abertura prematura passa a ser possível. Na segunda, a mola rompe: a abertura deixa de ser controlada.




Por que a mola da válvula de segurança quebra: cinco mecanismos com nome próprio


Falar em "mola gasta" não leva a lugar nenhum, porque não indica o que procurar. Os caminhos de degradação têm nome, origem e assinatura própria, e cada um deles termina num de dois efeitos: a mola perde força ou a mola trinca. O mapa abaixo organiza os cinco.



1. Fragilização por hidrogênio


O hidrogênio atômico é pequeno o bastante para entrar na rede cristalina do aço e ficar lá. Onde ele se acumula, o material perde ductilidade: passa a admitir trinca em tensões abaixo do limite de escoamento, ou seja, em carregamentos que o projeto considerava seguros.


A mola é justamente o componente da válvula que mais se expõe a isso, e por um motivo de projeto. Para entregar muita força num espaço pequeno, ela é feita de aço de alta resistência, tratado termicamente para dureza elevada. Essa mesma escolha que a torna eficiente é a que a torna suscetível. A API RP 576 registra que resistência, dureza e tratamento térmico da mola afetam a resistência dela ao trincamento assistido pelo meio.


2. Corrosão sob tensão


A corrosão sob tensão não acontece por acaso e não acontece sozinha: ela exige três condições ao mesmo tempo, um material suscetível, uma tensão de tração e um meio específico. Quem estuda o mecanismo em geral costuma parar aí. Na mola, a segunda condição é permanente.


Uma mola de válvula de segurança trabalha comprimida o tempo inteiro, desde a montagem. A tensão de tração no arame não é um evento, é o estado normal da peça. Isso significa que dois terços do requisito do mecanismo já estão dados de fábrica, e basta o meio aparecer. A API RP 576 é direta ao dizer que o gás sulfídrico causa com frequência corrosão sob tensão em molas, e classifica o mecanismo como particularmente insidioso, porque é difícil de detectar antes que a mola falhe.


3. Perda de carga por relaxação em temperatura


Este é o único dos cinco que não envolve ataque químico, e é também o mais silencioso. Uma mola mantida comprimida sob temperatura vai cedendo carga ao longo do tempo, sem mudar de aparência. O arame não corrói, não trinca e não muda de cor. Só entrega menos força do que entregava.


O projeto da válvula já reconhece o problema. A API RP 576 explica que a mola de uma válvula de segurança fica normalmente exposta por fora do castelo, e o objetivo declarado dessa escolha é protegê-la da temperatura do fluido aliviado. A mesma norma observa que molas podem enfraquecer por uso de material impróprio em serviço de alta temperatura. Traduzindo: a proteção existe, mas ela depende de a especificação do material ter combinado com a temperatura real de trabalho.


4. Corrosão que reduz o diâmetro do arame


Aqui o mecanismo é geométrico antes de ser químico. A corrosão superficial come o arame de fora para dentro, e a força que uma mola helicoidal entrega depende fortemente do diâmetro desse arame: pela relação clássica de projeto de molas, a rigidez varia com a quarta potência do diâmetro. Uma perda pequena de espessura custa uma perda desproporcional de força.


A API RP 576 descreve o efeito em duas frentes. A corrosão superficial ataca a mola até que a área da seção transversal deixe de ser suficiente para prover a força de fechamento necessária; e o mesmo ataque produz pites, que agem como concentradores de tensão e podem iniciar trincas. É o mecanismo que faz a ponte entre os dois efeitos do mapa: começa tirando força e pode terminar em ruptura. Sobre a lógica da corrosão que consome material ao longo do tempo, vale a leitura sobre como a corrosão galvânica coloca estruturas em risco.


5. Dano por operação instável


Uma válvula que abre e fecha em ciclo rápido não está aliviando, está tremulando. A API RP 576 descreve a origem do fenômeno, que costuma estar na tubulação de entrada imprópria ou obstruída, em ajuste inadequado do anel de blowdown ou em superdimensionamento severo da válvula para a carga de alívio real.


A norma registra o dano dessa tremulação nas superfícies de sede, submetidas a martelamento severo. Sobre a mola, a leitura é nossa e vai declarada como tal: ela atravessa exatamente o mesmo ciclo rápido de carga e descarga, e ciclo rápido repetido é condição de fadiga. Não é um mecanismo químico, é de carregamento, e por isso ele aparece no mapa por um caminho próprio.



Por que a atmosfera externa importa tanto quanto o fluido interno?


Porque a mola fica exposta por fora do castelo, e não em contato com o fluido. Isso é escolha de projeto, para protegê-la da temperatura. O efeito colateral é que ela convive com o ar da planta: maresia, respingo, chuva e condensação. A API RP 576 manda inspecionar as superfícies externas procurando indicação de atmosfera corrosiva.


Essa inversão costuma passar despercebida porque a atenção da equipe vai toda para o lado de dentro. A pergunta que se faz na reunião é qual fluido a válvula alivia, e a resposta vira a especificação do bocal, do disco e da sede. A mola fica fora da conversa justamente por não tocar no fluido, e é aí que o raciocínio se inverte contra ela: quem não toca o processo toca o ambiente.


Duas válvulas idênticas, aliviando o mesmo produto, envelhecem de forma diferente se uma está numa área abrigada e a outra está a cem metros do mar, ou embaixo de um ponto de respingo, ou numa passarela sem cobertura. O histórico do fluido é o mesmo nas duas. O histórico da mola não é. Esse mesmo raciocínio, aplicado ao conjunto dos ativos, aparece na análise sobre instabilidade climática e integridade de ativos industriais.



Válvula de segurança instalada em tubulação externa, exposta à intempérie
A atmosfera da planta chega à mola porque ela fica do lado de fora do castelo.

O que a literatura pública já registrou sobre molas de PSV


Nada do que está acima é hipótese de escritório. Existe investigação publicada, com metalografia e análise química, sobre molas de válvula de segurança que falharam em serviço, e boa parte dela é brasileira.



O mesmo autor principal voltou ao assunto três anos depois, com outra mola de válvula de segurança de linha de produção de gás offshore. O aço era outro, um inoxidável endurecível por precipitação da família 17-7, também tratado até o pico de dureza, e o diagnóstico foi de trincamento assistido pelo meio, facilitado pela baixa ductilidade do material. O estudo aponta a atmosfera de alto teor de cloretos e a possibilidade de contaminação por gás sulfídrico como as preocupações centrais da operação offshore.


Os dois casos apontam para o mesmo lugar, e não é o tempo de serviço. É a combinação de um aço tratado para dureza alta com um meio agressivo. Vale dizer o que os estudos não dizem: eles analisam falhas específicas e não estimam com que frequência isso acontece numa população de válvulas. Cada caso é uma peça de mecanismo, não de estatística.


Como se reconhece uma mola comprometida antes que ela falhe


Chegamos ao ponto prático. Se o tempo não é o indicador, o que é? A resposta é a evidência física da própria peça, e ela aparece quando alguém olha para a mola com a pergunta certa na cabeça.


A API RP 576 é objetiva sobre o que checar na inspeção visual da válvula recebida: as molas, quanto a evidência de corrosão ou trincamento e quanto à faixa de pressão correta para a pressão e a temperatura de operação; e as superfícies externas, quanto a qualquer indicação de atmosfera corrosiva ou de dano mecânico. São duas frentes, e a segunda é a que costuma ficar de fora do relatório.


Na bancada de teste, esse olhar tem hora certa: é no teste de recebimento, com a válvula exatamente como ela chegou da linha. O POP medido ali, antes de qualquer lapidação, troca de mola ou reajuste do set point, é o único que ainda carrega a história da peça. Depois do reajuste, a válvula volta a abrir no valor de plaqueta e a evidência do desvio deixa de existir.


O sinal observado e o que ele indica

O que se observa na peça

O mecanismo que aquilo indica

Pites e perda de brilho no arame, com produto de corrosão

Corrosão superficial em curso. O arame perde seção, e o pite é um iniciador de trinca

Trinca fina, sem deformação plástica em volta

Assinatura de trincamento assistido pelo meio, e não de sobrecarga mecânica

Marca de contato desalinhada entre a mola e os pratos

Carregamento excêntrico, que concentra tensão numa região do arame

Pressão de abertura medida como a válvula chegou da linha, abaixo do valor de plaqueta

Perda de força de fechamento, seja por seção consumida, seja por relaxação

Superfície de sede martelada

Histórico de operação instável, que a mola atravessou junto


Falta a parte honesta, e ela está na própria norma: a corrosão sob tensão é difícil de detectar antes que a mola falhe. Isso impõe um teto ao que a inspeção visual entrega. Ver a mola limpa não é o mesmo que provar que ela está íntegra, e nenhuma inspeção transforma ausência de sinal em garantia de comportamento futuro. O que a evidência faz é reduzir incerteza, que é coisa diferente de eliminá-la.


Daí a diferença entre olhar o relógio e olhar o mecanismo. A NR-13, Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego, organiza o calendário da inspeção, e é dela que sai a periodicidade que a planta cumpre; o tema dos prazos de inspeção na NR-13 tem peça própria. O calendário responde quando olhar. Ele não responde o que procurar, e essa segunda pergunta é a que decide se a mola vai ser encontrada a tempo.




Você ainda tem dúvida sobre o que faz uma mola perder a força?


Quatro perguntas aparecem sempre que este assunto entra numa reunião de manutenção. As respostas abaixo são curtas de propósito, e cada uma delas está desenvolvida em alguma seção acima.


O que faz a mola da válvula de segurança quebrar?

Quebra por ataque químico ao aço, não por tempo de uso. Os caminhos mais registrados são a corrosão sob tensão, a fragilização por hidrogênio e a corrosão superficial que consome a seção do arame. Somam-se a relaxação em temperatura, que tira carga sem marcar a peça, e o dano de operação instável.

Em parte. A inspeção externa revela indicação de atmosfera corrosiva e dano mecânico, e a pressão de abertura medida como a válvula chegou da linha revela perda de força. Mas a corrosão sob tensão é difícil de detectar antes da falha, então a mola limpa por fora não é prova de mola íntegra.

Por decisão de projeto. A API RP 576 registra que a mola fica normalmente exposta por fora do castelo para protegê-la da temperatura do fluido aliviado. O efeito colateral é que ela passa a conviver com a atmosfera da planta, e é por isso que maresia, respingo e condensação entram na conta.

Trocar devolve a força, e não muda a causa. Se o mecanismo veio do meio, a mola nova encontra o mesmo meio. A API RP 576 aponta três linhas onde a corrosão predomina: escolher material que resista ao agente, isolar a mola por fole ou aplicar revestimento compatível com a temperatura e o ambiente.

Mola de válvula de segurança desmontada sobre bancada de inspeção
É fora da válvula que a evidência da mola aparece: superfície, seção e alinhamento de contato.

A mola não falha só porque o tempo passou


Quando uma mola de válvula de segurança perde força ou rompe, o calendário explica pouco. O que realmente importa é reconstruir o caminho que levou até aquela condição: atmosfera corrosiva, material inadequado, temperatura, hidrogênio, perda de seção ou operação instável.


É por isso que simplesmente substituir a peça resolve a consequência, mas não necessariamente o problema. Se a nova mola volta para o mesmo ambiente, com o mesmo material e sob as mesmas condições, o mecanismo de degradação continua presente.


A inspeção precisa, então, ir além de confirmar se a válvula abriu ou não na pressão esperada. Ela precisa registrar como a mola chegou, quais sinais estavam presentes, se houve perda de força e se o histórico da instalação ajuda a explicar o que foi encontrado.


No fim, a pergunta mais útil não é "há quanto tempo essa mola está em serviço?", mas sim "o que esteve agindo sobre ela durante esse tempo?".


Quando essa resposta entra no histórico, a manutenção deixa de tratar a mola como uma peça consumível por idade e passa a tratá-la pelo que ela realmente é: o componente que sustenta o ajuste e cuja condição depende diretamente do mecanismo de degradação ao qual foi exposta.


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